quinta-feira, 20 de julho de 2017

Lugares amaldiçoados - edifício Joelma

     Antes de tratar sobre os acontecimentos que ocorreram no dia 1 de fevereiro de 1974, no edifício Joelma, acredito que devemos voltar 26 anos atrás, e assim talvez possamos ter uma visão mais ampla dos eventos trágicos que acarretaram na morte de muitas pessoas e no sofrimento de centenas de almas.

4 de novembro de 1948


casa número 74, rua Antônio João

     Por volta das nove da manhã, a casa de número 74 da rua Santo Antônio, no centro da cidade de São Paulo, foi assolada por um triste e brutal acontecimento, Paulo Ferreira de Camargo, 26, um promissor professor de química da Universidade de São Paulo, acabava de matar sua mãe, Benedita Ferreira de Camargo, 56, e sua irmã mais velha, Maria Antonieta, 23, na sala de estar, em seguida o homem arrastou os corpos de ambas para os fundos da casa e esperou friamente por sua outra irmã, Cordélia, 19, que em seu horário de almoço sempre ia em casa comer. Por volta do meio dia a mulher chegou em casa, e tão logo adentrou a residência, foi recebida pelo irmão que também a matou.
     Paulo, em seguida colocou capuzes pretos nas cabeças das mulheres e jogou-as em um poço no fundo do quintal da casa, poço esse, feito sob encomenda do homem tempos antes, de maneira totalmente premeditada, quando indagado, respondia que necessitava do poço para experimentos químicos.
Paulo Ferreira de Camargo
     O homem, considerado excêntrico desde a época de sua graduação, era órfão de pai desde muito novo, sua família era considerada de classe média, a senhora Benedita apesar de muito reservada, sempre foi vista por todos como rígida na criação dos filhos, como mãe viúva, se esforçara muito na criação dos três filhos, e apostou suas fichas no único filho homem, traçando planos sobre sua vida.
     Quando Paulo começou a relacionar-se com a ajudante de enfermagem, Isaltina dos Amaros, 23, que não era mais virgem, algo que ainda era extremamente mal visto pela sociedade da época, um turbilhão de brigas e intrigas se desenrolou, inúmeras cobranças e discussões entre a mãe e as irmãs e o homem se deram, a isso soma-se o fato de sua irmã, Maria Antonieta ter sido diagnosticada com esquizofrenia, e assim, o ambiente no endereço 73 da rua São João se tornou profundamente caótico. 
     Teorias apontam duas possíveis causas para o crime, a primeira diz que pelo fato de sua família não aceitar o seu relacionamento com Isaltina, Paulo decidiu por fim a vida da mãe e das irmãs. A segunda alega que Paulo não queria cuidar de sua mãe, já idosa e de sua irmã, diagnosticada com esquizofrenia.
     Depois do crime, o homem continuou a viver normalmente. Para os curiosos e desconfiados, dizia que sua mãe e irmãs haviam morrido em um acidente automobilístico no estado do Paraná enquanto viajavam. Essa explicação não convenceu os vizinhos, pois o homem nem sequer demonstrava tristeza ou angustia, pelo contrário, demonstrava total indiferença com a morte de todos os membros de sua família.
     O desfecho dessa história só se deu 19 dias após os assassinatos. Após a denuncia de vizinhos, a polícia de São Paulo foi até a casa do homem para investigar, lá chegando eles interrogaram Paulo acerca do poço, o homem respondeu a todas as perguntas da mesma maneira que respondeu aos construtores do poço, ele seria utilizado para uma futura fábrica de adubos que ele iria começar, porém, os policiais não se convenceram da versão dada pelo homem e foram inspecioná-lo, a primeira vista nada parecia fora do normal, mas ainda não convencidos, os investigadores solicitaram a ajuda do corpo de bombeiros.
     Os homens do corpo de bombeiros não tardaram a chegar, logo em seguida um dos homens foi alçado e desceu até o poço para averiguar, já lá embaixo ele se deparou com algo que tiraria seu sono e mais tarde sua vida, ele encontrou os corpos das três mulheres em avançado estado de decomposição. Na época dos fatos o material de segurança pessoal do corpo de bombeiros era quase rudimentar, e por ter descido até lá sem os devidos cuidados, o bombeiro morreu tempos depois de infecção cadavérica, decorrente do seu contato com a água podre onde os corpos estavam.
bombeiro resgatando os corpos
     Sabendo que seria preso e teria sua vida arruinada, Paulo correu e se trancou no banheiro da casa, onde havia previamente guardado um revolver e sem pestanejar disparou um tiro contra o próprio coração, morrendo quase que instantaneamente ali mesmo, pondo fim a essa trágica história. Bem, isso é o que dizem alguns, para outros esse foi apenas mais um episódio de um mal muito maior.

Histórico de dar medo


     Mas talvez você esteja se perguntando, afinal qual a relação entre essa história e o caso do edifício Joelma, ocorrido quase trinta anos depois, e é justamente ai que a história ganha ares de um filme hollywoodiano, pois no mesmo endereço onde esses crimes ocorreram, no ano de 1972 foi construído o famoso edifício Joelma, que hoje é conhecido como edifício Praça da Bandeira.
     Alguns podem alegar que tudo não passa de coincidência, porém se voltarmos mais ainda no tempo, para a época pré colonial, mais precisamente para meados do século XVI, havia a cerca de um quilômetro do local do atual edifício Praça da Bandeira, um pequeno rio, cujos indígenas denominavam-no de “Anhangabaú” ou em português, algo como “o lugar onde vive o mal”, a crença desses homens em algo muito ruim que ali habitava era tão forte, que evitavam o quanto podiam passar próximo ao local, e dizem às lendas que até a água dali podia matar quem a bebesse, apesar disso mantinham perto do local um cemitério. Séculos depois, esse rio foi aterrado e hoje é o famoso vale do Anhangabaú, vale esse que abriga o mais antigo viaduto da cidade, o Viaduto do Chá, construído no ano de 1892, e que por muitos anos fora conhecido como o “suicidodromo” de São Paulo, pois era o local escolhido por muitos que desejavam tirar as próprias vidas.
     O próprio local onde foi construído o edifício Joelma, mesmo antes de ter havido casas ali, especula-se que foi utilizado para a tortura de escravos.
     Agora que o histórico do local foi levantado, podemos perceber que a região onde o edifico Joelma fora construído sempre foi carregada de eventos sombrios e trágicos, é como se aquela terra guardasse segredos ocultos por mais de meio milênio, aquele chão apesar de ter mudado muito, parece que ainda está manchado de sangue e sofrimento, de todas as almas que já pereceram em um local amaldiçoado.
     Agora vamos ao mais conhecido evento que aquele lugar já foi palco, o dia em que o céu da cidade de São Paulo ficou preto de fumaça, e ardeu em chamas.

1 de fevereiro de 1974

edifício Joelma, 1974

     Com sua construção finalizada em 1972, logo foi alugado ao Banco Crefisul de Investimentos.
     Em uma sexta feira chuvosa, como muitas outras na cidade de São Paulo, por volta das nove horas da manhã (mesmo horário dos assassinatos de 1948), um curto-circuito em um aparelho de ar condicionado no 12° andar, ocasionou um principio de incêndio, que rapidamente se espalhou por grande parte dos andares próximos. Cerca de quinze minutos após o inicio do incêndio, o fogo já tomava grande parte do prédio, impossibilitando que muitas das pessoas presentes no edifício conseguissem fugir pelas escadas. Desesperadas, as pessoas começaram a utilizar os elevadores para fugir, porém logo o fogo atingiu o sistema elétrico dos elevadores, o que fez com que todos parassem.
     O caos se instalou entre todos que estavam dentro do prédio, muitos seguiram rumo ao terraço, na expectativa de serem salvos por helicópteros, alguns se abrigaram dentro dos banheiros do prédio, enquanto outros se equilibravam nos parapeitos das janelas externas.
Quando as chamas já atingiam o 20° andar, muitas pessoas se atiravam pelas janelas diretamente no chão, as cenas eram horríveis, houve até um caso em que uma mãe se atirou do 15° andar com uma criança de pouco mais de um ano nos braços, onde milagrosamente a criança se salvou, enquanto a mãe morreu tão logo tocou o chão. Quando as escadas chegaram e foram posicionadas, os bombeiros subiram por elas para resgatar as pessoas, logo que chegou no 12° andar, um dos bombeiros avistou três corpos pegando fogo, em seguida ainda conseguiu encontrar uma menina viva, retornando à escada com a menina nas costas, começou a descê-la, quando de repente, um homem se atirou do 19° andar para tentar se agarrar ao bombeiro, desesperado para se salvar, ao cair acertou outro homem que pulara do 16° andar, também tentando se agarrar ao bombeiro, os dois homens trombaram na menina, que foi jogada no chão junto aos homens, o bombeiro não caiu por sorte, seu pé prendeu na escada, tudo isso acabou por matar a menina e um dos homens.
     Por volta das dez da manhã as pessoas já extremamente desesperadas começaram a se atirar como moscas, deixando as calçadas no entorno do prédio cheias de corpos e sangue. Das pessoas que fugiram para o topo do prédio, algumas se salvaram após um helicóptero da FAB ajudar nos resgates, porém a maioria morreu de intoxicação e devido ao calor escaldante que chegou a mais de cem graus Celsius. O fogo só foi contido próximo as duas da tarde, quando muitas das pessoas já haviam perecido.
     Após o fogo se extinguir, os bombeiros entraram no prédio e puderam ver o horror que aquilo havia se tornado, no total morreram 191 pessoas, e mais de 300 ficaram feridas. Um caso específico ficou marcado na mente dos bombeiros, dentro de um dos elevadores foram encontrados treze corpos de pessoas, os corpos estavam tão queimados que se fundiram uns aos outros, tornando a identificação impossível, tendo em vista que na época não haviam exames de DNA, os corpos foram separados de maneira imprecisa e enterrados lado a lado em um cemitério local, tempos depois o zelador do cemitério alega ter ouvido gritos e gemidos provenientes dos túmulos. Ainda segundo o homem, os barulhos só cessaram quando ele jogou água sobre os túmulos, costume esse que se mantém até os dias de hoje. Esse caso ficou conhecido como o caso das treze almas.
     Tempos depois o edifício foi reformado e renomeado para edifício Praça da Bandeira, mudando inclusive de número, atualmente funciona como prédio comercial, abrigando muitos escritórios, onde ainda hoje, pessoas relatam sons estranhos, coisas se movendo e vultos pelo local.
     No ano de 2004 uma monja budista foi chamada até o local para purificá-lo, a pedido da prefeitura de São Paulo, na gestão do então prefeito José Serra. A monja disse que ali se encontram inúmeras almas das pessoas que morreram no incêndio, sobretudo nos dois últimos andares e nos banheiros. Durante o procedimento, pessoas que acompanharam o processo disseram ter sentido muito frio, porém o dia era quente e não haviam aparelhos de ar condicionado ligados no local.
     E assim o edifício Praça da Bandeira, segue sendo um dos lugares mais estranhos e sombrios de que se tem notícias, um local profundamente abalado por eventos trágicos e um lugar que guarda marcas irreparáveis, que talvez somente o tempo possa apagar.
edifício Praça da Bandeira, antigo ed. Joelma

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